O câncer é uma doença traiçoeira. Trabalha inicialmente sem que
se perceba sua atuação, e quando se percebe, já espalhou pelo corpo inteiro
suas garras destruidoras. Então, ao sentir-se dores insuportáveis, vai-se a um
médico que finalmente dá a notícia fatal, e morre-se muito rapidamente após
essa triste notícia, principalmente pela pesada carga psicológica que a doença
traz junto com ela. Mas também há os casos daqueles que iniciam logo o tratamento
e conseguem se livrar da doença. Porém,
em todos os casos onde ocorre uma cirurgia, há aquele famoso período de cuidados
especiais chamado pós-cirúrgico. A tradicional “convalescença”, quando o
operado fica com algumas limitações até estar pronto e liberado para voltar à
vida normal. Há também casos de pessoas
que, por não saberem do câncer, conseguem conviver com dores suportáveis
durante muitos e muitos anos. Inclusive pessoas que morrem de velhice com o
câncer, mas se tivessem tomado conhecimento teriam morrido muito tempo antes.
A administração pública pelo Brasil inteiro hoje possui
câncer. O câncer da "safadeza com o dinheiro público" que a população desconfia ou até sabe que existe mas que em alguns lugares ainda
não foi oficialmente diagnosticado pelos médicos da nação, que são os raríssimos, quase
extintos, lutadores pela sobrevivência da moralidade pública. Na maioria das vezes,
esses lutadores não estão sujeitos à vontade particular de governadores e prefeitos corruptos e poderosos líderes de cartéis com eles mancomunados. Esses lutadores são por vezes ministros, secretários de Estado, juízes,
promotores públicos, delegados estaduais e federais, parlamentares que criam a
coragem da denúncia após uma perigosa investigação e quando finalmente conseguem descobrir e denunciar o foco da corrupção, são mal vistos pelos seus
pares, são tidos como “manés”, que deveriam ter ficado quietos para proteger
seus “parceiros”. Sempre correm risco de morte. Mas quando o problema chega aos jornais, não há outro jeito:
os corruptos caem do cavalo.
O problema mais grave, quando se denuncia e se pune agentes corruptos da administração pública, afastando-os, é que enquanto estavam no poder, aparentemente tudo funcionava! Mas funcionava
entre aspas, porque o serviço público que eles dirigiam se mantinha à base de
grandes desvios de dinheiro público, enriquecimento ilícito, conchavos com agentes
criminosos, ladrões altamente organizados, usando terno e gravata. Quando
eles caem do poder, ao invés do serviço público melhorar, aí é que piora tudo!
Porque isso? Resposta: Porque tudo funcionava para manter as tramoias deles! O serviço “funcionava”
para manter a impressão pública de que tudo estava bem. Então quando a corrupção é
descoberta e freada, têm-se que reconstruir todo aquele serviço público de novo; extirpar o câncer e
isso leva um tempo. Na maioria das vezes a população que não compreende isso
comete o terrível erro de dizer: “antes estava melhor”.
Exemplo disso tem acontecido na recente intervenção do
Ministério da Saúde nos hospitais federais do Rio, como por exemplo no Hospital
Geral de Bonsucesso. As compras de medicamentos e equipamentos médicos eram
superfaturadas, a administração do hospital e seus asseclas deitavam e rolavam em berço
esplêndido, enriquecendo às custas de verba pública. Finalmente veio um
ministro corajoso, e eles se deram mal.
Num primeiro momento, o povo também parece estar se dando
mal, porque nesse lapso de tempo entre a exoneração dos corruptos e a “arrumação
da casa”, existe um prejuízo a ser suportado por todos nós, os cidadãos. Contudo, não é
a hora de reclamar pela falta de leitos, de equipamentos e medicamentos. O
poder público está sangrando para resolver isso, e certamente substituir toda
uma horda de corruptos por outros administradores que queiram trabalhar com
dignidade, exige um tempo mínimo e precisamos dar aos interventores pelo menos
esse tempo mínimo. Se está havendo a queda dos corruptos, é isso mesmo que nós
tanto pedimos: justiça social! Moralidade pública! Respeito à cidadania! Os que
estão sendo prejudicados agora com os serviços limitados, nesse período de “convalescença”,
ou “pós cirúrgico” da intervenção do poder público moralizante, podem ser um
pequeno número se comparado com a imensa multidão que logo será beneficiada por
uma administração mais técnica e digna. Se a gente não der um tempo para a
administração boa arrumar casa, eles vão achar que a gente merecia mesmo era
continuar com a administração cancerosa, e passarmos a vida inteira convivendo
com o câncer por pura opção.
A Bíblia Sagrada ensina que há tempo para tudo debaixo do sol, por isso enquanto estiverem tratando a doença, não reclame. Espere o fim do tratamento. Pode ser que em alguns desses casos o câncer seja vencido. E a gente só vai saber se tiver paciência pra parar de criticar durante a convalescença. Só dá para confiar no poder público quando vemos a corrupção sendo extirpada e punida. Espero em breve rever o Hospital Geral de Bonsucesso e todos os outros intervencionados funcionando a todo vapor, para ser exemplo de que ainda existe dignidade sem segundas intenções na administração pública.
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A Bíblia Sagrada ensina que há tempo para tudo debaixo do sol, por isso enquanto estiverem tratando a doença, não reclame. Espere o fim do tratamento. Pode ser que em alguns desses casos o câncer seja vencido. E a gente só vai saber se tiver paciência pra parar de criticar durante a convalescença. Só dá para confiar no poder público quando vemos a corrupção sendo extirpada e punida. Espero em breve rever o Hospital Geral de Bonsucesso e todos os outros intervencionados funcionando a todo vapor, para ser exemplo de que ainda existe dignidade sem segundas intenções na administração pública.
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