(Texto de Sergio Lopes)
Desde que alguns órgãos sociais (Funabem, Ministério Público, IBGE etc.) detectaram por meio de estatísticas as alterações de comportamento, nas últimas décadas, das crianças e adolescentes das camadas mais pobres da pirâmide social que cresceram nas favelas e nos lugares das grandes cidades utilizados como esteio para o tráfico de drogas ilícitas, foram confirmadas algumas suspeitas, reputadas como "descobertas", que muitos de nós estamos já fartos de saber. Dessas várias descobertas, algumas devem nos chamar a atenção de forma mais preocupante. Vou separar aqui apenas três dessas descobertas para nossa reflexão:Primeira descoberta: A INVERSÃO DO CONCEITO DE JUSTIÇA - a noção que essas crianças e adolescentes herdaram de que o policial era um justo agente protetor, e que o bandido era um sujeito do mal, hoje é uma noção absolutamente invertida na mente de muitos deles, de forma que já existem hoje crianças e adolescentes que, tendo crescido num ambiente em que a figura da polícia incomoda, gera conflitos, é reputada como assassina de indefesos e tem o poder de arrombar a porta da casa e invadir para matar, têm algumas dessas crianças e adolescentes o objetivo de tornar-se “bandido”, não porque a atividade criminosa lhes atrai, mas porque para muitas dessas crianças é a única forma de estar a postos para a defesa contra a força repressora dessa polícia. As referências de personagem ideal para essas crianças são os “espertos”, os “malandros”, os que conseguem safar-se da polícia; os guerrilheiros árabes do jornal da tv que explodem os judeus; as figuras dos lutadores do fliperama, do vídeo-game; os vilões do cinema ou os grandes e fictícios guerreiros street-fighters!
Se entramos na sala da casa de um desses garotos e dermos de cara com a cena de um filme de ação em que dois homens lutam, e perguntarmos ao garoto da favela ou do morro - referindo-se àquela luta - quem é o “do bem” e quem é “do mal”, poderemos nos surpreender com a resposta, pois sua noção do que é o "do bem" e o "do mal" pode ser o oposto da nossa. Na seqüência vamos descobrir que aquele personagem que ele falou que é o “do bem”, é aquele que nós detectamos como o criminoso do filme, que na fuga matou policiais, atropelou pessoas e destruiu tudo à sua frente, ao volante de um automóvel cinematograficamente veloz e... furtado! Esse é o cara! (Na visão de muitas dessas crianças).
Segunda descoberta: O ALISTAMENTO VOLUNTÁRIO - a partir dessa noção invertida em que o banditismo, o tráfico e o crime tornaram-se sinônimos de resistência ao poder repressor da polícia, tornou-se fácil a procura voluntária desses menores por sua inclusão nas fileiras do crime “organizado”. Eles se tornaram disponíveis e voluntários. Hoje é mais fácil para o aliciador da favela alistar o adolescente na força do tráfico, do que um pai de família convencer o filho a alistar-se nas Forças Armadas! O aliciamento é uma ação prática de inclusão dos menores no mundo do crime. Os chefes do tráfico e do crime não precisam usar a força para incluir as crianças e os adolescentes a participarem do esquema. Eles são entusiasmados voluntários.
Terceira descoberta: A LEI USADA CONTRA ELA MESMA - o comando das atividades criminosas é exercido sempre por elementos MAIORES que são profundos conhecedores da lei penal, suas brechas e suas concessões. São eles que informam aos menores que, sendo menores de idade, podem cometer crimes à vontade pois jamais serão presos e muito menos condenados. E o argumento mais funesto é: “aproveitem para arrepiar enquanto vocês são de menor, porque depois o chumbo engrossa!” Dessa forma, adolescentes de 16 e 17 anos são constantemente incentivados e conduzidos a cometerem as maiores atrocidades, por causa da impunidade que a lei lhes assegura.
Agora, senhores, imaginem que fosse aprovada a lei sobre a redução da maioridade penal, e que a partir de agora os crimes cometidos por maiores de 16 anos fossem puníveis. Não precisamos ser filósofos nem agentes sociais para perceber que, a partir da validação dessa lei, o alvo dos aliciadores passaria a ser quem? Resposta correta: OS MENORES DE 16. Ou seja, as tarefas criminosas que antes eram confiadas aos menores de 18 agora serão confiadas aos menores de 16. O que aconteceria, na prática, é que o crime iria continuar buscando as brechas da impunidade, transformando em criminosos crianças de 13, 14 e 15 anos, trazendo o exercício da criminalidade para faixas cada vez mais próximas da infância.
Confesso que há algum tempo, ouvindo os argumentos de um amigo político, até cheguei a concordar com a redução da maioridade penal, mas depois de refletir sobre o assunto, e ponderar sobre a hipótese de que o crime sempre vai buscar as brechas da própria lei para agir contra ela, percebi que essa redução significa, se aprovada, uma grande armadilha social para as faixas etárias mais baixas, que passarão a ser o novo alvo do aliciamento. Sou a favor, enfim, de que se mantenha a faixa de maioridade penal atual, de 18 anos, mas também de que se examine, de forma individualizada e peculiar, cada caso de crime cometido por menores, de maneira que, se preciso for, essa redução seja não fixada na lei, mas aplicada a casos específicos, de acordo com as investigações e as circunstâncias de cada crime praticado por um menor.
Salvo melhor juizo...
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Sergio Lopes,
Vôo 1876 da GOL para Recife, Céus do Brasil, 3 de setembro de 2008.
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11 comentários:
OI, SERGIO...EU SOU POLEMICA E VC PIOR Q EU ,HUM, VOCE E UM ESTUDANTE DE DIREITO E EU UMA SIMPLES PROFESSORA, APESAR DE VIVER DIZENDO Q A MOEDA TEM DUAS FACES , EU SEMPRE ESQUEÇO DE VER A OUTRA. EU SOU TOTALMENTE A FAVOR DESSA LEI, MAS JA NAO ACHO Q E A SOLUÇAO PELO MENOS DE 50%,DOS CASOS. FICA MAIS DIFICIL TIRAR UMA CRIANÇA DE DENTRO DE CASA AOS 8 ANOS ,E AOS 13 JA E MAIS FACIL. BEM O QUE ACHO E QUE ESSA LEI PODE TER UM SIGNIFICADO DE DIFICULDADE,PELO MENOS DE TIRAR DE SUA MAE. MAS CONFIO EM VC E NA SUA VERDADE, ATE PQ VC ESTA NO MEIO ,ESTUDANDO? NUNCA ACREDITEI Q SERIA SOLUÇAO MAS ,UMA DIMINUIÇAO....AS LEIS SAO RESPONSAVEIS OU MELHOR O DONO DELAS , AI FICAMOS PROCURANDO SOLUÇOES PASSAGEIRAS, BEM MUDANDO DE ASSUNTO GOSTARIA MUITO DE OUVI-LO PREGAR E SABER SUA IGREJA JA Q TO FAZENDO TRABALHO COM CRIANÇAS ,QUE DEUS CONTINUE TE ABENÇOANDO E TE DANDO ESSA SENSIBILIDADE FIQUE NA PAZ UM ABRAÇO
OLá Sérgio Lopes!
É com muiiita alegria que venho lhe deixar esta mesangem em seu blog. Gostaria de lhe dizer que desde novinha (hoje tenho 20 anos) acompanho a sua carreira e que as suas músicas que já fazem parte da minha vida. Nunca perco um CD seu, eu já fiz toda a minha família e as pessoas que me rodeiam gostarem de você também! Que nosso Jesus te abençoe sempre!!!!AH, quando você ve,m cantar aqui no Espírito Santo?! Estamos esperando hein...
Com muito carinho, Huandra -ES.
Comentar Sérgio Lopes é coisa que não ouso me atrever por razões óbvias. Somente quero deixar registrado o meu orgulho por ter participado de boa parte da sua infância aqui, em Campina Grande -Paraíba. É, incontestavelmente, um poeta nato, um brincalhão das palavras. Foi talhado para isto - eu que o diga!
Minhas saudades te procuram, velho Sérgio!
Um abração,
Alfrânio.
Querida Thifany. Excluí seu comentário porque vc esqueceu de fundamentá-lo.
Uma vez que discorde de algum texto, ou que tenha algo a enriquece-lo CORRIGINDO-0 (que parece ser o caso), não esqueça de fundamentar legalmente sua correção, citando as fontes jurídicas (imagino que nesse caso seja o E.C.A.).
Abraço e obrigado por sua participação.
Você acredita que não tinha enxergado a coisa por essa ótica? Incrível como Deus direciona seus pensamentos da melhor maneira possível. Realmente essa redução pode ser uma armadilha. Mas sabemos que as coisas aqui embaixo (mundo) não estão nada boas e, infelizmente, de acordo com as Sagradas Escrituras, a tendência é piorar. O amor se esfriando, pais matando filhos, filhos aos pais. Enfim, seria muito bom se alguma medida jurídica resolvesse os problemas do mundo. Mas são só paliativos. Só a verdadeira fé é que pode mudar a situação do nosso planeta. Façamos nossa parte! Deus abençoe.
Eu já havia pensado sobre a terceira descoberta... mas não nas outras duas.
Também não sou a favor da diminuição da maioridade penal.
Isso com certeza afetaria maiores proporções e englobaria ainda mais jovens no tráfico.
=)
http://esperaemdeus.blogspot.com/
Embora as leis me atraem muito, sou leiga demais no assunto. O meu parecer é de mae,tia,etc. Sou a favor de que se tenha uma abertura p julgar cada caso. Em caso de crime ediondo, sou a favor da reduçao.Como vitima eu seria... Mas na maioria dos casos sou totalmente contra. Acho q vc tem toda a razao. Seria pior.Liciariam menores q os menores.E essa coisa é muito seria; reamente ñ sabemos o q passa pelas periferias do mundo...
Como sempre,vc falou e disse...
Bjo.
Embora as leis me atraem muito, sou leiga demais no assunto. O meu parecer é de mae,tia,etc. Sou a favor de que se tenha uma abertura p julgar cada caso. Em caso de crime ediondo, sou a favor da reduçao.Como vitima eu seria... Mas na maioria dos casos sou totalmente contra. Acho q vc tem toda a razao. Seria pior.Liciariam menores q os menores.E essa coisa é muito seria; reamente ñ sabemos o q passa pelas periferias do mundo...
Como sempre,vc falou e disse...
Bjo.
oie Sérgio , aqui é Nèlbe,do orkut!
como também estudante de Direito, acredito no mesmo ponto de vista seu! Acredito que procede!
sempre haverá lacunas nas nossas normas juridicas...haverá sempre antinomias!
e o Direito positivo,hoje, não está muito ligado à essas proposições,acredito! Porque uma mudança nesses códigos´seria complicada demais...principiando pela carta magna!
Querido concordo totalmente com você, cada vez mais o bandido é visto como herói e um modelo a ser seguido por muitas crianças e adolescentes e a redução da m. penal levaria a redução da idade das crianças aliciadas para o crime.
Na educação vem acontecendo o mesmo o ECA inibe algumas atitudes em relação ao aluno, tornando a educação mais permissiva limitando bastante o professor.
Vânia
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